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AMOR À PRIMEIRA VISTA
Postado por Assis

Deusdedit M. Moita-

Odontólogo membro da UBE-Pi.

 

 

Conheci-a em l940, quando éramos ainda adolescentes. Foi amor à primeira vista. Até 1942 nossos encontros eram apenas aos domingos, já que viera de Lagoa Alegre para estudar, sob regime de internato, no Colégio Diocesano.

 

Sendo assim, durante as noites, limitava-me a ouvir os silvos dos vapores que vinham de Parnaíba conduzindo passageiros e cargas, ou descendo de Floriano e Amarante, rebocando balsas cheias de animais (porcos, cabras, galinhas etc.) e frutas para abastecer o Mercado Central (único à época), ou dos trens chegando de São Luiz, ou ainda, dos guardas noturnos que nos davam aquela sensação de segurança. Ouvia também os pregoeiros matinais, como o vendedor de pirulito que gritava:... “Olha o pirulito, enrolado num papel, enfiado num palito!” Ou. “Mamãe eu quero, papai eu grito, eu quero um tostão pra comprar de pirulito, enrolado num papel, enfiado num palito!” O vendedor de estrume que, de casa em casa, gritava: “comprar estrume dona?” Mas o mais tradicional era o “Papagaio”, vendedor de bananas que gritava. “Ele leeevaaaa!... muiiitas bananas compridas! muiiitas bananas maçã! muiiitas roxas! é bem maduras e maciiiias!” O sorveteiro, com uma geringonça munida de manivela com que mexia o sorvete gritava. “ Oia o sorvete”!

 

          Quando em 42 o internato do Colégio fechou, passei a vê-la e ouvi-la diariamente. Foi quando conheci os tipos exóticos que perambulam pelas ruas e praças. Tipos como o “Jaime Doido”, de quem se dizia ter participado da “Revolução de 30”, o que motivara sua alienação, o “Preá”, um hemiplégico que pedia esmola e bebia pinga nos bares da Pedro II, o “Avião”, que praticava pequenos furtos  mas os divulgava como sendo uma aventura, iguais às que assistira no Cine Rex, a “Maria Sapatão”, com seus dedos cheios de anéis etc.

 

                    Lembro o quanto era pequena, calma, ingênua e sem malícia. Lembro-me que àquela época, poucos carros circulavam pelas poucas ruas calçadas. Eram oito ou dez carros de praça e alguns particulares; Hudson, Odsmobille, Buik, Cadilack e Studbak, todos importados, já que o Brasil só fabricaria seu primeiro Aero-Willes, dali a 20 anos. Os de praça, hoje táxi, conduzidos por atenciosos motoristas (alguns proprietários). Era o “Setenta e um”, impecavelmente vestido de branco, o “seu Armando”, português, que discutia com discernimento a ditadura Salazar, o “Alemão Branco”, o “Alemão Preto”, o “Feliciano” e o “Nicanor”, que apesar de problema num dos olhos, dirigia com maestria. Faziam ponto exclusivamente na Praça Rio Branco. Depois, surgiram outros, como o Alencar, que elegeu-se vereador, o Costa Lima, o Rosca, o Rosquinha, o Calado que, de tanto falar, foi eleito também vereador. De particulares, lembro-me de poucos como o do Dr. Gerardo Vasconcellos, do Dr. Machado Lopes, do Dr. Madeira Campos  e do Dr. José  Melo. Havia ainda os carros oficiais à disposição do Interventor Leônidas Melo e  do Prefeito Lindolfo Monteiro.

 

                    Lembro-me ainda do zelo com que eram tratadas as praças. Os jardineiros, verdadeiros arquitetos,  podavam as árvores, dando-lhes as mais variadas formas geométricas, simetricamente perfeitas. A praça Pedro II, a de cima, era palco de retretas todos os domingos à noite, proporcionadas pela banda de música da Polícia Militar, enquanto as moças suburbanas encontravam-se com seus mancebos, geralmente policiais, cujo Quartel funcionava ali onde hoje é o Centro Artesanal do Piauí. Já na Pedro II de baixo, os rapazes e moças “da sociedade” namoravam até as 21:00 horas, limite imposto para uma moça de família permanecer na rua. Interessante é que não havia nenhuma placa indicando aquela segregação. Simplesmente acontecia. 

 

                      Não posso esquecer os hidroaviões Douglas da N.A.B. (Navegação Aérea Brasileira) que amerissavam no Rio Parnaíba, trazendo 29 passageiros.

 

                   Bons tempos vivemos  juntos. Quando a conheci, eu era um adolescente de 12 anos e ela uma menina moça de 88. Muitas coisas aconteceram até agora, em virtude da evolução e do progresso; algumas maravilhosas, outras péssimas. Hoje, sou um idoso de 78 anos, com todas as mazelas inerentes à senilidade e ela, do alto dos seus 156 anos, uma donzela madura sem aquelas qualidades bucólicas, porem mais bela e mais atraente.

 

                Boa parte de sua estrutura servida por esgoto sanitário, permitiu seu crescimento vertical podendo-se observar cerca de 200 edifícios de mais de doze andares, várias avenidas asfaltadas e arborizadas dando –lhe uma bela visão paisagística. Dois shoppings –center e uma rede de bares restaurantes e boates servem a seus habitantes e turistas, uma rede hoteleira dispondo de salões de convenção propiciam realização de congressos, convenções, palestras e seminários o que lhe empresta uma população flutuante comparável a grandes metrópoles.

             ...Meus parabéns querida Teresina, minha eterna namorada!

 

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